set 23 2010
A vida deveria ser um dark room!!!!
Navegando no site da minha dinda Maite Schneider, acabei parando nesse artigo, A vida deveria ser um dark room…
Adorei a forma como ela descreveu as pessoas que curtem esse cantinho reservado dentro de algumas boates, por isso resolvi postar aqui pra vcs…
Muito bom mesmo, e concordo com o que ela disse…
Mas infelismente a vida não eh assim hoje, mas quem sabe daqui um tempo se torna.. rs…
No quarto escuro que muitas boates e estabelecimentos
possuem em um cantinho reservado muitos atrevimentos acontecem.
Para quem ainda não sabe e nunca ouviu falar, dark-room é um
local totalmente sem luz, onde rolam amassos, sexos
variados, passadas de mãos e tudo o que sua imaginação
e curiosidade ousar experimentar.
Muitas casas já foram fadadas ao fracasso por não possuírem
em seu espaço um cantinho privê como este.
Sinal de que o
dark room é muito freqüentado, mesmo que a grande maioria
dos seus freqüentadores ainda negue que o visite.
Vergonha do que? Vergonha para que?
Conversando com vári@s amig@s que sempre estão no dark room,
percebo que o que mais encanta no dark room é o anonimato.
O sabor de não ser reconhecido e poder soltar todas suas
fantasias e desejos, sem medo de sofrer reprimendas por
seus gostos e de ser crucificado com olhares de reprovação.
Ali, no escurinho do dark é possível experimentar,
ousar e principalmente SER. O dark não te pede RG,
identificação e nem diz que você está errado.
Outro grande atrativo do famoso “cantinho escuro”
é a possibilidade de um sexo fácil e sem cobranças.
Ou até mesmo afeto. Já vi no dark room, pessoas que
queriam somente beijar e serem tocadas. Pessoas
extremamente carentes, que pelos mais diversos motivos,
não conseguem experimentar o afeto à luz do dia, nem
embaixo da luz negra das boates. Sem dúvida,
o dark room serve para muitos homossexuais ainda como
válvula de escape de sua sexualidade. Talvez se não
existisse este espaço, muitas destas pessoas nem mais
estariam entre nós, pois energia que não é canalizada
e extravazada, explode e várias vezes de forma
fatal e mortífera.
O que quero fazer pensar aqui é saber do porquê não pode
ser feito todo este carinho e libertação de desejos e
vontades fora deste espaço? Por que as pessoas
ainda não têm coragem de serem elas mesmas,
fora da escuridão?
Talvez tenhamos a resposta no capítulo final
da novela América, que não teve coragem de expor
ao público brasileiro um simples beijo entre dois homens
(nem que fosse um selinho):- Tudo que rola entre dois
homens ou mulheres é vergonhoso, sujo e não deve ser
mostrado.
Esta é a mensagem que sempre é imputada e mostrada na cara,
sem entrelinhas e sem se preocupar com uma grande
porcentagem de pessoas que quer simplesmente amar e ser amada.
Afinal, quem não quer?
Quem sabe se a vida fosse um dark room, e cada qual se
preocupasse com seu rabinho (ou pinto ou periquita),
as máscaras caíssem e pudéssemos ser mais
inteiros e principalmente mais felizes e plenos.
Confesso que ainda tenho medo de uma sociedade
que quer que vivamos em guetos, escondidos e com
vergonha do que somos. Confesso que tenho medo de uma
sociedade que nos trata como não-cidadãos, mesmo
com os impostos que pagamos.
Confesso que tenho medo dos gays que continuam achando
que é bonito gozar a noite inteira no dark room e não
tem coragem de denunciar as atrocidades que
passam em seu dia-a-dia.
E quando visito os dark rooms, percebo que também
é muito baixo o número de preservativos que vejo no chão.
Sei que houveram muito mais prazeres e gozos, do que os que
conto no chão quando fecha a boate. Talvez na liberação de seus
êxtases, perca-se a noção de perigo e esqueça-se que o
prazer pode ser maldito algumas vezes.
Quando não temos consciência dos nossos atos, podemos
pagar com a vida ou sofrimento. Pode ser que este
esquecimento não seja proposital e sim fruto de uma incontida
repressão sofrida e que na hora do gozo explode como um
paraíso onde tudo é possível.
Inclusive o sexo sem camisinha com um desconhecido,
o beijo na boca entre dois homens e duas mulheres, e até o amor
que muitos só irão sentir na vida, dentro destes cubículos
criados e que continuamos tratando como ninhos de
nosso afeto marginal.
E nas muitas idas e vindas, nas muitas gozadas que
uma pessoa dá no dark room numa só noite,
resta muitas vezes a solidão. Como pode alguém
gozar até mais de uma vez por noite e continuar
sentindo-se vazio e não-satisfeito. Eu conto para
você, amig@, lá no dark room, procura-se por algo
que não temos e encontramos algo que sempre nos
acompanhará – a solidão de não termos coragem de viver sem
máscaras e enganações, sendo o que somos.
Isto é o pior que temos. Isto é o pior
que somos. Fracos, fragilizados e sem vida,
afinal a vida só é permitida para
quem é branco, de olhos claros, bem sucedido financeiramente,
de boa família e lógico, heterossexual.
Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com


